PESQUISAS E FALTA DE ASSUNTO*
A METALINGUAGEM é um recurso muito utilizado por quem escreve com freqüência, mas esbarra na falta de assunto ou de idéias originais - um mal que atinge escritores, poetas, roteiristas, blogueiros, colunistas de jornal... O caderno Brasil, da edição da sexta-feira passada (25/07), teve seis de suas nove páginas (66%) dedicadas à publicação da mais recente pesquisa Datafolha para as eleições municipais de outubro. Como era de se esperar, o foco se concentrou nas principais capitais (São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e Recife).
Na Folha o assunto ocupou quase o espaço de uma nota.
Painel de um Leitor: Clóvis Rossi tem toda razão em criticar o jornalismo apressado e descuidado que, baseado em pesquisas de opinião, tenta 'cravar' os acontecimentos futuros ('Fast journalism', A2, 10/01). Entretanto, o texto do nobre colunista deixa uma pergunta: Por que acreditar nos levantamentos que supostamente dão 'vantagem de uns 20 pontos' a Hillary Clinton nacionalmente, quando em tese os mesmos institutos de pesquisa erraram feio ao colocar Barack Obama até 13 pontos à frente em New Hampshire? Um erro dessa magnitude num país como os Estados Unidos coloca em dúvida a credibilidade das pesquisas de intenção de voto, e dá argumentos àqueles que acreditam que elas são mais capazes de induzir do que de prever resultados.
Clóvis Rossi: Bom argumento, William. Mas que outro instrumento está disponível para medir os humores do eleitorado? Abs. Rossi.
Painel de um Leitor: Concordo. Infelizmente não há outro meio mais eficaz de avaliar as tendências de voto.
Mas então surge outra pergunta: A quem realmente interessa medir os humores do eleitorado?
Ontem assistia na CNN a uma entrevista do Jon Stewart com o responsável por um importante instituto de pesquisa americano (se não me engano se chama Zogbi). Diante da "barriga" histórica de New Hampshire, ele questionava se as previsões eram realmente relevantes, se influenciavam a decisão das pessoas. O entrevistado se saiu com evasivas.
Os grandes beneficiados pelas pesquisas são os próprios candidatos e seus partidos - por motivos óbvios - e a mídia, que suprime a ausência de pautas com a divulgação de resultados de pesquisas quase semanais. Os jornais garantem capa e ao menos duas páginas recheadas de infográficos e repercussões que pouco acrescentam.
Isso só contribui para a "personificação" das disputas eleitorais. As pessoas passam a discutir nomes e não programas ou idéias. Seria utópico imaginar um cenário onde as pessoas pudessem escolher seus candidatos sem a influência de pesquisas - proibi-las seria antidemocrático, mas a imprensa enquanto defensora do interesse público, a despeito de seus interesses particulares, poderia e deveria contribuir mais alterar essa situação.
Clóvis Rossi: Não concordo, não. Acho que pesquisas são uma informação na imensa massa de informações disponíveis em eleições. Só isso e tudo isso. Abs. Rossi.
*Post atrasado. Deveria ter saído no último sábado (26/07).










